Os Haters

0
695

Olá queridos leitores e queridas leitoras, como me foi dada a oportunidade de novamente escrever aqui, trago um importante tema a nossa reflexão. Por que nosso tempo histórico tem cultivado mais o ódio do que o amor e a fraternidade? Por que as pessoas fazem tanta questão de expor o seu temperamento negativo, mesmo que as vezes aquilo não represente o seu modo real de vivenciar a experiências reais? Por que, cada vez mais, as pessoas estão fazendo escolhas comportamentais baseadas no ódio e não no prazer? Essas, para mim, são questões que intrigam e expõem uma incapacidade de adaptação do ser humano às mudanças culturais.

É verdade, amigos e amigas, que este comportamento é mundial, ou pelo menos ocidental, e está muitíssimo associado ao crescimento exponencial do acesso à rede mundial de computadores e às redes sociais, mais especificamente. Mas ter mais espaço para expor suas ideias não é o suficiente para explicar a profusão de ódios que nos rodeiam. Uma mensagem pueril de um astro de rock ou de uma estrela da TV pode em instantes se transformar em um problema de ordem internacional por causa de uma posição pessoal, que em um ambiente de liberdades deveriam ser preservados. Ah mais e se esta estrela ou este astro falar mal do meu país? Poderiam me perguntar alguns. Responda com veemência, mas respeitando o outro e depois deixe de segui-la. É isso que esperamos de pessoas que prezam por sua liberdade, e pela liberdade de todos de expressarem suas opiniões.

Mas o que vemos é diferente. Uma posição pessoal, por mais pueril que seja tem merecido de volta enormes ondas de xingamentos pessoais, expressões coletivas de ódios raciais, homofóbicos, sexistas, gordofóbicos, revelando o desenvolvimento da cultura do ódio em detrimento do amor pregado em várias ocasiões históricas por homens, mulheres e movimentos que nos influenciam ainda hoje, a começar por Jesus Cristo, que além dar a outra face a seu agressor, deixou a mensagem: “amai-vos uns aos outros como eu vos amei”. A Revolução Francesa, fato fundador do nosso modo de vida liberal tinha como lema “Igualdade, Fraternidade e Liberdade”, o positivismo, movimento fundador da nossa República tinha como frase símbolo “Ordem, Amor e Progresso”, infelizmente incompleta na nossa bandeira.

Então por que tanto ódio? Por que os haters estão determinando nossas escolhas, se sempre fomos orientados a amar ao próximo? Por que avaliar o outro pelo que ele faz entre quatro paredes ao invés de observar seu comportamento em relação ao próximo? Como historiador, caríssima leitora e caríssimo leitor, observo que existe um comportamento coletivo do medo da mudança. As pessoas estão com medo que o mundo que ela conhece, que lhe foi apresentado desde quando eram crianças não exista mais. As pessoas preferem aquele entendimento binário que nos foi ensinado por Maquiavel onde o bem é o bem e o mal é o mal, aquela coisa bem fácil de entender como os filmes de Hollywood, nos quais o mocinho sempre vence no final e o malvado é morto, ou no mínimo vai preso pelo resto da vida, garantindo a vingança (e não a justiça) de toda sociedade.

Os haters temem que esta verdade acabe e que ele não saiba mais como se relacionar com este mundo e seja ele próprio o excluído das relações sociais. Ou seja, odiar e expor este ódio publicamente é uma necessidade de um determinado individuo para preservar o que ele conhece como verdade, é também uma busca fundamental de encontrar outros que comunguem das mesmas percepções. No entanto, como rapidamente percebem que outros haters tem posições de ódio, mas diferentes das suas, buscam adequar o discurso para formar uma coalisão de odiadores em oposição a outros odiadores, formando assim uma ordem que opõe os haters de direita contra os haters de esquerda. Esses dois grupos têm em comum o fato de preferirem a lógica do capitalismo X comunismo, nós contra eles, heterossexuais X homossexuais, pretos X brancos, mas o problema é que o mundo nunca foi e não é binário e agora uma boa parte da sociedade está tomando consciência disso e por isso ganhando a fúria do haters de esquerda e de direita.

Um exemplo claríssimo desta ausência da “binariedade” (confesso que não sei se a palavra existe, mas explica bem o que quero dizer), é que convivemos com gays, negros, mulheres e até criminosos sabidos e naquela convivência social não assumimos uma postura violenta, de ódio. Um homofóbico empedernido não deixa de conviver com um gay que faça parte do seu ambiente familiar, de trabalho ou de convívio social; um racista costuma tentar se desfazer da pecha apresentando sempre um “amigo” preto; machistas empedernidos se tornam frágeis frente a mulher que ama.

Mas o problema é que este ódio que nossa sociedade tem feito questão de expor através das redes sociais tem estimulado mais e mais pessoas a cometerem crimes, tem feito aumentar significativamente os ataques a homossexuais, os feminicídios, os atos de violência contra negros, o ódio, os haters estão mantando por mãos alheias e mentes mais frágeis. O exemplo categórico deste comportamento de ódio foi o assassinato da Marielle e do Anderson e o ataque sofrido pelo Jair Bolsonaro. Mais do que os fatos, os ataques à memória da Marielle ou as comemorações pela facada desferida contra o candidato a presidente, são preocupantes e fruto de uma sociedade que está preferindo o ódio à convivência democrática.

É preciso ponderar, no entanto, heroína leitora e herói leitor que chegou até aqui, que ninguém precisa abandonar aquilo que acredita para se adaptar a este mundo, precisamos apenas saber nos expressar democraticamente e saber ouvir e ler democraticamente. E quando, por ventura, cometermos o deslize de nos expressarmos mal, saber também pedir desculpas para evitarmos que uma situação como esta rume para a inimizade, a violência e a desagregação social. Estamos com a faca e queijo na mão para construir, efetivamente, uma sociedade livre e tolerante, esta é nossa hora de fazer história.

Chegou a hora de invertermos a curva do ódio para a fraternidade, senão não sobrará ninguém para defender o legado de Jesus Cristo, de Robespierre e Rousseau, de Gandhi, de Martin Luther King. Afinal “Hay que endurecerse, pero sin perder la ternura jamais”.

Leonardo Bruno da Silva, Doutor em História Política das Relações Internacioais, UNESP; Professor da UNESA, Professo da Escola Municipal Jornalista e Escritor Daniel Piza; Autor (organizador) do livro Conversas Sobre o Brasil – Ensaios de Crítica Histórica

Deixe uma resposta