Na primeira metade do século XIX, oito anos após a vinda da família real, em 1808, chegava ao Brasil, a convite do Rei dom João VI, a missão artística francesa com a finalidade de trazer “cultura” e arte europeia para estes lados dos trópicos. Desta missão, faziam parte os artistas Jean-Baptiste Debret e Nicolas Antoine Taunay, entre outros artistas escultores e arquitetos.

Destes artistas, certamente o mais conhecido é o pintor Jean-Baptiste Debret, que nos deixou um legado muito mais que artístico, mas principalmente histórico e sociológico, ao mostrar, com olhar sensível, a sociedade brasileira daquele período. Anos mais tarde, outros artistas viriam ao Brasil, como o tipógrafo e pintor Hercule Florence, em 1824, autor do mais antigo registro fotográfico das Américas; Johann Moritz Rugendas, em 1834 – ambos participantes da expedição Langsdorf – que registram muitas cenas do cotidiano brasileiro, entre outros; cada um com seu estilo e características peculiares.

Búzios não teve a sorte de ser retratada por um destes artistas da missão francesa ou mesmo da expedição Langsdorff, que durou até 1829. Naquele período, a armação baleeira de Búzios, uma das principais da capitania do Rio de Janeiro, no Brasil Colônia, fora abandonada, anos atrás, em 1768: segundo o historiador Marcio Werneck, em razão das más condições do mar de Búzios, que dificultava a atividade baleeira, e do declínio da modalidade terrestre de caça às baleias.

A história de Búzios deste período é fascinante, algumas encontradas em documentos oficiais, outras, extraídas de relatos orais, mas nenhuma – pelo menos que se tem conhecimento – registrada em imagem de pintura ou em processo fotográfico. Com exceção de uma citação referente à “Ponta dos Búzios”, num dos mapas incluídos no “Roteiro de todos os sinais na costa do Brasil” (anônimo, 1583)[1]

O ouro das Minas Gerais deu em uma Armação

O óleo de baleia utilizado na colônia e exportado para metrópole (Portugal), tinha diversas finalidades: era utilizado na impermeabilização de navios e barcos, na confecção de argamassa usada em construções e, especialmente na iluminação. É importante destacar que não havia outras técnicas de iluminação neste período, e mesmo sendo mal cheiroso, e produzindo uma iluminação tênue e até certo ponto melancólica, o óleo de baleia era importante para manter as ruas da colônia iluminadas.

No início do século XVIII, a pesca da baleia no Rio de Janeiro foi afetada pelo aumento da produção de ouro das Minas Gerais. O fluxo de navios que transportavam ouro reduziu significativamente a quantidade de baleias, especialmente na Baía da Guanabara, consequentemente afetando a captura e a produção. De acordo com a historiadora Myriam Ellis, a preocupação com os efeitos da queda da produção baleeira, que afetaria a exportação e comércio, e a demanda por iluminação pública da colônia, fez com que a capitania descentralizasse a captura de baleia e deslocasse a produção para outras regiões do litoral fluminense, entre elas, Búzios.[2]

Segundo Werneck, a armação de baleias de Búzios operou ativamente por 40 anos (1728-1768). Neste período, no auge de sua produção, era de fundamental importância econômica, sendo uma das três principais armações da Capitania. Para Werneck, os efeitos da produção acima das expectativas nos primeiros 10 anos de operação, estimularam o novo contratador Brás de Pina, a ampliar e fundar, em 1740, a Capela de Sant’Anna.

A armação era um complexo de produção de derivados da baleia, que pode ser compreendido desde a pesca do animal até o processamento do óleo. Sua instalação, feita com mão de obra escrava, era constituída de um engenho de frigir, reservatórios de óleo, armazéns, oficinas, cais, rampas, paredões, alojamentos e senzalas. As outras construções do empreendimento eram a “casa da vivenda” onde residia o administrador; a moradia dos feitores e a casa do capelão.

Pintar a história de Búzios

Esta história é linda e cruel. Para a nossa concepção atual no que diz respeito ao meio ambiente, a pesca da baleia era uma atrocidade e uma banho de sangue. A técnica, trazida ao Brasil pelos biscainhos no século XVII, era, primeiramente, caçar o baleote (filhote da baleia) e deixa-lo agonizando, amarrado às baleeiras. Segundo relatos, o filhote gemia como um porco e fazia com que a mãe viesse ao seu encontro. Ao aproximar a mãe, o arpoador lançava sobre o animal e o deixava sangrar até a morte, que se dava de maneira dramática, após o último esguicho de sangue.

O lado belo, é que as baleias migram para o norte do Brasil nos meses de junho e julho em busca de águas mornas para procriarem. No período da migração, quando iniciava a temporada das baleias, a enseada da praia da armação ficava repleta desses animais. A data 26 de julho, quando se comemora o dia da padroeira Sant’Anna, remete ao período da caça da baleia. Segundo o historiador Marcio Werneck, nesta data era rezada a missa solene na capela de sant’Anna (única feitoria que restou da armação baleeira) com votos para uma boa safra. Durante a missa o padre abençoava os arpões, lanchas e baleeiras e “ (…) ao surgir o esguicho característico da baleia, o padre era avisado e tangia o sino da torre, os tambores rufavam e baleeiros partiam rápidos nas suas lanchas (a vela e a remo) para caçar a cobiçada presa.” Werneck.

Búzios é um dos locais mais fotografados, podemos ver suas belas imagens por toda parte. Com o uso das redes sociais, visualizamos diariamente, dezenas de novas fotografias de Búzios. Há também vários artistas talentosos que passaram ou estão por aqui, que produziram inúmeras pinturas que retratam suas praias, pessoas e lugares. Enfim, Búzios atual está mais do que registrada em imagens.

O desafio de pintar o passado é não cair na armadilha da idealização e do anacronismo. Todo artista é idealista por natureza, e quer de alguma maneira, mudar ou recriar o mundo ao seu redor. Então, como pintor, me vejo diante do desafio duplo de fugir do idealismo e do anacronismo. Se Rugendas, “pintor cronista” que retratou o Brasil no século XIX, foi criticado, na época, por idealizar seus desenhos, imagine o artista que se propõe a pintar algo que não viveu.

Neste esboço de aquarela, ainda idealizado, está retratada a “fábrica” instalada na Praia da Armação. No alto, de frente para “Praia dos Maribondos” atual praia dos Ossos, é possível ver a jovem Igreja de Sant’Anna, construída em 1740 pelo contratador português Brás de Pina. A construção da Capela feita com argamassa, que tinha em sua composição o precioso óleo do cetáceo, eterniza o período da pesca da baleia em Búzios e lhe confere múltiplas representações.

Os escravos, como mostra a pintura, transportavam os barris nas costas, da praia até o engenho/armazém, a gordura da pele do cetáceo. Uma baleia, após o beneficiamento do óleo, conforme as suas dimensões, produzia de dez a trinta pipas de óleo, o que equivale a média de vinte pipas por animal capturado; a pipa comum correspondia a aproximadamente 424 litros de óleo. Segundo Werneck, após transportarem até à fábrica, derretida a gordura e apurado o óleo, canalizava-se o produto até os reservatórios de pedra na “casa dos tanques”; e, finalmente, transportava-se o esqueleto para ser enterrado na praia vizinha que, por essa razão, passou a ser chamada “dos Ossos”.*

Na pintura procurei descrever a cena e o contexto: o feitor, sempre armado; os escravos, que trabalhavam durante um dia inteiro debaixo de sol quente; as baleias mortas que deixavam seu sangue em toda extensão da praia; os casebres que ficavam no entorno da armação e a bucólica capela de Sant’Anna, imponente e bela.

Na outra cena, é retratada a chegada da imagem de Sant’Anna, transportada por escravos e levada em procissão até à capela, onde está há pelo menos 278 anos. Esta cena, provavelmente mais idealizada que a outra – que será corrigida na pintura final – figura, ao lado da instalação da armação baleeira e a formação do quilombo da Rasa – que será pintado posteriormente – como registro de nascimento de Búzios como povo.

*Há uma controvérsia em relação ao topônimo “Praia dos Ossos”. Para o historiador Antonio Câmara (Toninho Português) a praia pode ter esse nome por causa das catacumbas no entorno da Capela de Sant’Anna e que ficavam expostas pela ação do clima ou das escavações do terreno.


Alan Câmara
Artista Plástico, designer gráfico, professor de história e aspirante a historiador.

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