Este grito desesperado, que evidencia a destruição dos bens de um indivíduo, de
uma família ou de uma nação, já é tardio para o Museu Nacional da Quinta da BoaVista,
que também era chamado de Museu da UFRJ ou, como aprendi em um dos cursos que
ali tive a honra de fazer, Museu Nacional de História Natural.

A verdade, querida leitora, querido leitor, que já não esteja esgotado do assunto e
permaneça nestas linhas até o fim, é que o fogo no museu é o fogo na brasilidade ou na
brasilidade que se construiu até os nossos dias. Somos um povo que encontramos nossa
unidade exatamente na diversidade, na multiplicidade de valores culturais, que bebemos
da fonte dos diversos povos indígenas que ocuparam este pedaço da América, dos
diversos povos africanos que foram trazidos para cá a sua revelia, mas formaram novos
valores por aqui e também dos europeus, a frente os portugueses, mas com influências
francesas, inglesas, italianas, espanholas etc, mais recentemente povos asiáticos como
japoneses, chineses, libaneses, turcos entre outros vários também contribuíram com este
caldo multicultural que formata o Brasil e suas regionalidades. Esta foi até hoje a nossa
essência e boa parte destes elementos estavam registrados, catalogados e pesquisados no
Museu Nacional.

Mas estamos vivendo socialmente um momento de transformação e uma boa parte da sociedade brasileira e a sua frente lideranças políticas importantes, estão defendendo o princípio que o multiculturalismo, a diversidade, a generosidade brasileira devem dar lugar ao pensamento único, a uma única forma de viver, ao xenofobismo, que ataca acampamentos de refugiados, ou agride africanos a pauladas etc. É neste contexto que o incêndio no Museu Nacional acontece.

O Ilustre leitor e a arguta leitora podem pensar que eu estou oferecendo com os
meus argumentos a suspeita de que o incêndio foi criminoso. Mas não, em hipótese
alguma chego a este delírio, até porque não sou dado a teorias conspiratórias. No
entanto, afirmo categoricamente, que o desprestigio de instituições culturais que
preservam exatamente os importantes registros desta multiculturalidade tem causado o
seu abandono peremptório.

Senão vejamos, nos últimos meses tivemos a destruição parcial do importante
museu da língua portuguesa por um incêndio, quem conhece o museu paulista identifica
nele exatamente este valor da defesa do multiculturalismo da nossa cultura, e agora a
destruição do Museu Nacional. O que existiu em comum entre os dois casos? O descaso
das autoridades governamentais e da sociedade brasileira com o legado que guardavam
estas instituições.

Pelo viés governamental fica a observação de que os sucessivos governos vem reduzindo o orçamento das instituições universitárias, como a UFRJ, num claro sinal de fazer aprovar seu projeto de acabar com os Centro de Ensino, Pesquisa e Extensão de excelência que existem no Brasil e passar tudo à iniciativa privada. Querem te convencer que o que é público é ruim, caro e mal administrado e, certamente, alguns dos leitores e leitoras desta artigo já se convenceu disso, mas como contraponto afirmo: 95% de toda a pesquisa científica produzida no Brasil é feita em Universidades Públicas. Bom só para entender o que aconteceu com o Museu no último, a UFRJ, que é a gestora do Museu, teve um corte de 51% de verbas para investimento, verbas orientadas para obras, inclusive emergenciais. Estes dados estão em matéria do G1.

Segundo fontes do próprio Museu, publicadas na imprensa, as verbas do MN caíram de pouco mais de 300 milhões no passado para 54 milhões em 2018. Experimente, querida leitora e responsável leitor, ter uma redução de 500% em seu orçamento, como ficaria as medidas de proteção da sua casa?

Estas ações governamentais, no entanto, são aceitas e até comemoradas por uma
significativa parte da sociedade, é o que eu estou chamando de obscurantistas. Estas
pessoas acabam por legitimar medidas para destruir esta estrutura multicultural da
sociedade brasileira, preferem algo mais autoritário, controlado por inteligências
superiores que conduzirão a sociedade ao caminho certo. Não à toa o seu maior líder ao
ser perguntado sobre qual a sua proposta para recuperar minimamente o Museu
respondeu: “Que tem Messias no nome, mas não faz milagres.” Alegando que o que
queimou, queimou e pronto. O seu plano de governo não aponta uma linha sequer sobre
os investimentos em cultura. É obscurantismo.

Faz-me lembrar que quando o Estado Islâmico entrou nas milenares cidades ao sul
do Iraque, destruiu inúmeras esculturas milenares porque elas eram contrárias aos
ensinamentos de Alah, ou que a Igreja Católica queimava livros e pessoas que
discordassem de seus dogmas na Idade Média, ou que os Nazistas tentaram eliminar
todos os judeus e suas produções científicas, ou ainda que Stalin mandou milhares de
russos, Chechenos, Ucranianos para morrerem no frio da Sibéria. Os obscurantistas não
querem só construir uma nova ordem, querem destruir os antigos vestígios culturais de
outras eras.

Mesmo que o incêndio não tenho sido provocado por uma tocha empunhada por
um destes obscurantistas, a eliminação de 20 milhões de peças catalogadas atendem
perfeitamente aos seus propósitos e a redução programada de recursos para a
manutenção deste acervo foi uma tocha muito mais eficiente do que se colocassem
hordas enfurecidas destruindo múmias, fósseis, objetos históricos, meteoritos no Museu,
porque agora eles podem empurrar a culpa para os outros.

Leonardo Bruno da Silva, Doutor em História Política das Relações Internacioais, UNESP; Professor da UNESA, Professor da Escola Municipal Jornalista e Escritor Daniel Piza; Autor (organizador) do livro Conversas Sobre o Brasil – Ensaios de Crítica Histórica.

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